quarta-feira, 15 de março de 2017

Grande ABC: uma potencia na cultura, uma mandala carente de políticas culturais

Agnes Franco
Neri Silvestre 


Antes de iniciar esta breve reflexão, é preciso entender que o ABC é uma região periférica da Grande São Paulo, o que significa que, como todas as periferias, sofre a marginalização e acesso limitado a todo tipo de recurso, assistência e política de Estado se comparado às capitais. Graças às indústrias aqui instaladas no início do século passado, todo o ABC prosperou graças a mão de obra operária. Assim sendo, o ABC carrega a cultura operária em suas veias. Da luta pelo direito dos trabalhadores, passando pela migração de nordestinos, descendentes de escravos e imigrantes que emprestaram sua força de trabalho, sem esquecer da resistência do movimento estudantil e tradicionais núcleos artísticos: o Grande ABC é uma mandala de tradições e etnias muito diversas. Carece esclarecer que, apesar de suas características históricas, como em todo o país, a região sofre com o desconhecimento acerca do amplo significado de ‘cultura’: por serem os artistas a vanguarda dos debates nesta temática, comumente a cultura é reduzida à arte. Não são considerados elementos fundamentais da cultura local. A forte presença da comunidade chilena na região e seus quitutes, a importância da comunidade árabe e religião islâmica, as centenas de terreiros de religiões de matriz africanas não mapeados, as tradicionais feirinhas de artesanato e culinária etc. Isso posto, não fica difícil imaginar porque esta região, que já foi referência na cultura rock e punk, dos grupos de samba e núcleos teatrais, das famosas casas com música ao vivo e shows gratuitos ao ar livre – inclusive nas periferias - hoje sofre com políticas extremamente apartadas do povo e da valorização cultural. Algumas tentativas de avanço nesta área foram ensaiadas nos últimos anos, mas, não foram suficientes para que gerasse massa crítica e resistente. Com a derrota massiva da esquerda nas últimas eleições, a produção cultural perdeu muito. E tem sido alvo de ataques. Ribeirão Pires fundiu a Secretaria de Cultura com a de educação, bem como Santo André e São Bernardo do Campo. Em Rio Grande da Serra a pasta é reduzida a uma diretoria. Mauá tem Secretaria, mas, não tem Sistema Municipal de Cultura (PMC). São Caetano do Sul tem um PMC votado, um conselho atuante, mas não tem orçamento. Diadema, que foi modelo de fomento ao Hip-Hop, perece. E como resultado, como sempre, quem paga é o mais pobre. Um bom exemplo foi o corte na verba para as escolas de samba promovido por algumas cidades – incluindo as maiores (Santo André e São Bernardo) - que resultou na anulação dos desfiles carnavalescos de 2017. A privação do carnaval de rua/desfiles é simbólica. Só sabe o significado cultural, de pertencimento e território que uma escola de samba promove, quem se dá ao trabalho de vivenciar uma agremiação além de seu caráter de entretenimento – o que poucos (ou nenhum?) gestores da região se dispõem a fazer. Nas escolas estão presentes a música, a poesia, promoção ao comércio, oficinas de formação e esporte, religiosidade, festas com comidas tipicamente brasileiras e tantos outros elementos que compõem a cultura. Mais que isso, é também simbólico porque o carnaval – ponto máximo dos 365 do ano vividos por toda uma comunidade, é feito majoritariamente por pessoas simples: é a mão preta que sangra no tamborim, a empregada doméstica que costura uma fantasia, o trabalhador braçal que compõe o samba, o porteiro que dá aulas de capoeira e varre o chão da quadra, o jovem que expressa-se nos grafitis expostos e comunidades que passam o ano todo se dedicando a uma festa que promove o direito à cidade e território, que acolhem, e que, tantas vezes, cumprem o papel que deveria ser do Estado. É necessário um amplo debate com a população, que aborde desde o fazer artístico até a gestão cultural. Acreditamos que seja necessário um orçamento em torno de 3% da arrecadação do município, com eficientes sistemas municipais de cultura para executar o orçamento. Para isso, a cultura deve estar na centralidade do governo e fomentar a economia no setor de modo que haja espaço para a comercialização da produção simbólica de arte e cultura – o que é altamente benéfico social e economicamente. Para atingir este objetivo, estamos na resistência. Temos feito um trabalho de discussão sobre a cultura, mas ainda é necessário envolver toda a população neste debate para culminarmos na verdadeira ampliação do conceito e o direto a cultura, é preciso fazer  pressão  nos funcionários: nos gestores públicos, que precisam entender que o orçamento deste setor é uma questão prioritária. A cultura precisa ser transformada em direito, porque faz parte processo civilizatório, porque possibilita, porque é possível pacificar – e a conjuntura pede resistência, mas, também unidade. É o momento dos coletivos, de as classes medias que estão nas universidades e movimentos de resistência fazerem uma luta conjunta com os periféricos, os artistas, e com toda a população. As escolas de samba e outras comunidades precisam estar no centro desse debate. A cultura deve ser ampla, aberta, conectada ao nosso tempo e usar todos os meios possíveis pra desenvolver seu potencial inclusivo e empoderador. E não descansaremos, até chegar lá. Porque somos feito de poesia, luta, música, perfume de acarajé e senso crítico.



Parceria 

Agnes Franco é jornalista especializada em políticas públicas. Foi atriz, produtora, bailarina, envolveu-se em escolas e rodas de samba, no ABC e Vale do Ribeira. É candomblecista, ambientalista e luta pelo combate ao racismo, direito das mulheres e povos tradicionais.

Neri Silvestre Agitador cultural, gastrônomo, formação em gestão cultural, membro do Sarau na quebrada, do ponto de cultura Circomunidade e militante da cultura.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

QUELÉ – A VOZ DA COR

                                                                                                                                                                     

                                                          

Era para ser apenas o trabalho de conclusão do curso de jornalismo dos quatro jovens na Universidade Metodista de São Paulo. Porém, quando propuseram a história de Clementina de Jesus como tema, não foram estimulados em seguir com a proposta, pela imensa dificuldade de se encontrar acervo documental sobre a vida da ex-empregada doméstica que, mesmo tendo sua carreira formal de cantora iniciado somente em 1964, pelas mãos do poeta e produtor cultural Hermínio Belo de Carvalho, conseguiu, com sua voz possante, encantar multidões no Brasil e no exterior.

O fato é que os estudantes Janaína Marquesini, Felipe Castro (reside em São Bernardo do Campo), Luana Costa e Raquel Munhoz, foram resistentes, mantiveram o foco e decidiram ir atrás dos personagens importantes que conviveram com Clementina, que também era chamada de Quelé.



A tarefa não foi nada fácil. Milton Nascimento os recebeu somente dois anos depois de insistentes pedidos do quarteto, após ser convencido de que não se tratava de um simples trabalho de faculdade. Também foi uma luta com Hermínio Belo de Carvalho, pois o mesmo disse não durante quatro meses, apesar dos insistentes telefonemas que recebia de duas a três vezes por semana.

Foram em busca de depoimentos gravados no MIS (Museu da Imagem e do Som)  e na Funarte.

Apesar das adversidades, o trabalho foi concluído e apresentado. A banca deu nota 10 e o resultado virou o livro - QUELÉ – A VOZ DA COR - cujo lançamento aconteceu no dia 10 deste mês, na Livraria da Vila, em Pinheiros, com a presença de muitas pessoas que aguardaram pacientemente na imensa fila que se formou para os autógrafos dos quatro jovens biógrafos que nos presentearam com a história de uma artista que ajudou a enriquecer a cultura brasileira.


“Trinta anos é tempo de sobra. No caso de Clementina de Jesus, morta em 1987, nenhum jornalista experiente ainda tinha se dedicado a ela. Coube a quatro jovens assumir a missão quando ainda eram universitários. Não sucumbiram às dificuldades que cercam a história de uma pessoa tão representativa da cultura oral.” Luiz Fernando Vianna

                                                                                                                                 Neusa Borges

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Notícia da reunião de janeiro de 2017





No último dia 30 de janeiro, deu-se a primeira reunião deste ano do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC, como acontece ininterrupta e mensalmente desde novembro de 2007, quando de sua fundação.

 Como pode ser verificado aqui, em nosso histórico,  o objetivo principal deste Fórum é criar um processo participativo e crítico das políticas públicas da cultura e da ação cultural integrada na região do ABC. Trata-se de um grupo independente, sem constituição jurídica, que vem discutindo, entre muitas questões, estratégias de atuação regional, incluindo a organização da comunidade cultural, o estabelecimento de canais de comunicação entre as várias instâncias institucionais e a comunidade, a preservação da memória e o reconhecimento da cultura como centralidade e valor inalienável da formação humana.



 Ainda que as postagens deste blog no segundo semestre de 2016 tenham sido interrompidas, até por conta da preocupante conjuntura política nacional, eleições municipais e outras ocorrências, o Fórum seguiu com suas reuniões e debates, fazendo circular entre seus pares, bibliografia crítica como suporte para reflexão e compreensão da nossa tão complexa realidade, em especial o cenário cultural na região em que vivemos.

Com a presença de representantes de três de nossas cidades (Santo André, São Bernardo e São Caetano do Sul), preocupações com essa realidade foram levantadas, inclusive a possibilidade de se criar uma estrutura paralela mínima dentro da sociedade civil para, além do debate, efetivar algumas ações efetivas.


A proposta de um Colóquio entre os Secretários de Cultura das 7 Cidades em parceria com a Universidade Federal do ABC, inclusive, já foi encaminhada informalmente à Pro-Reitoria de Extensão e Cultura e breve será formalizada. A ideia é colher dos Secretários que acabam de assumir, as principais ideias e linhas mestras de políticas públicas de cultura para suas respectivas pastas.

A seguir ao Carnaval, o Fórum pretende também promover um debate com pessoas historicamente ligadas ao Carnaval, nos últimos tempos, visto apenas no seu aspecto de espetáculo e/ou desfile. Queremos saber dos bastidores e levantar possíveis direções, levantando e debatendo as questões cruciais para a manutenção dessa tradição popular brasileira.



Reiteramos aqui o convite a todos que desejam colaborar com o blog, para que nos enviem seus textos, quer sejam ensaios, reportagens, resenhas. A exigência é que abordem temas de políticas públicas da cultura, preferencialmente, de arte e cultura em geral.

Assinaram a lista de presença:

Dalila Teles Veras – Santo André (que também assina este texto)
Neusa Borges – São Bernardo do Campo
Zhô Bertholini – Santo André
Dilma de Melo Silva – São Bernardo do Campo
Valdecírio Teles Veras – Santo André
Erike Busoni – São Caetano do Sul
Rosana Banharoli – Santo André
Marcelo Dino Fraccaro – Santo André
Rodrigo Regis Ferreira – Santo André
Mireille Lerner – Santo André
Julio Mendonça – Santo André

Luzia Teles Veras – Santo André




quinta-feira, 7 de julho de 2016

Notícia da I reunião preparatório do XIV Congresso de História do Grande ABC

  


  

O município de Rio Grande da Serra reafirma seu compromisso em realizar o XIV Congresso de História do Grande ABC no próximo ano, completando, desta forma, dois ciclos completos ao longo de 27 anos, nos quais foram promovidos dois Congressos em cada uma das sete cidades do ABC.
Para tanto, em colaboração com o Consórcio Intermunicipal, convocou a primeira reunião preparatória que foi realizada no dia 18 de junho, nas dependências de um equipamento público da cidade, o CREB Mário Covas. A reunião decorreu num clima muito fraterno e animado. Diferentemente do último Congresso, a equipe da Prefeitura não veio com nenhuma proposta pronta. Veio para ouvir, ou seja, entendeu a proposta de construção conjunta (Sociedade Civil e Prefeituras) que tem sido a tônica dos Congressos.




Boas contribuições surgiram durante a discussão, com a participação de todos os presentes. Dentre muitas, a questão (premente) das águas, inclusive, já com sugestões de nomes a convidar; a questão das migrações e emigrações; A secretária Aida disse que envidará esforços no sentido de realizarem vídeos com depoimentos de memorialistas e moradores antigos da região, gravados ao longo do período de preparação do Congresso.  


Algumas de minhas sugestões durante a reunião:
-  Fiz um apelo aos presentes para que seja realizada uma força-tarefa no sentido de ampliar a divulgação do Congresso e envolver as universidades nesse processo, pois essa tem sido uma lacuna ao longo de toda história dos congressos que, diga-se, também precisa ser contada, ou seja, a história de um Congresso, único no seu gênero e no modo como é construído e conduzido, com a contribuição de acadêmicos e memorialistas espontâneos.

- Sugeri que este congresso homenageie a Dra. Gisela Saar, memorialista e incansável ativista pela preservação da história e do patrimônio local, lembrando que quando da realização do 7º Congresso em RGS, há 15 anos, grande parte das reuniões foram realizadas na própria casa dela que funcionou por muito tempo como Secretaria de Cultura de fato. Lembrei ainda que naquele 7º Congresso houve um meritório empenho local em envolver as escolas, professores e alunos, com atividades prévias e frequência interessante durante o Congresso. Nesse sentido, Aida Jardim Teixeira, Secretária de Educação mostrou-se bastante receptiva. 

- Sugeri que a próxima reunião fosse realizada no Consórcio, em Santo André, a fim de facilitar a participação dos que têm dificuldades de ir até RGS. Marta Lima, secretária do Consórcio,acaba de confirmar, por email, que a II reunião preparatória ficou agendada para o dia 03 de agosto, às 14h00, no Consórcio. 

A sociedade civil, como sempre, esteve representada por memorialistas históricos e desde sempre comprometidos com a realização dos Congressos; membros do Grupo de Trabalho (GT) História e Memória do Consórcio Intermunicipal Grande ABC e membros da Secretaria de Educação e Cultura do município sede. O Fórum Permanente de Debates Culturais esteve representado pro três membros de seu grupo gestor. 




Mesmo com dificuldades de locomoção, a dra. Gisela Leonor Saar, acompanhada de familiares, também compareceu à reunião, demonstrando entusiasmo. Na ocasião, doou 2 volumes encadernados com vasto material recolhido por ela com a história da Capela de São Sebastião do Séc. XVI, o mais importante patrimônio da cidade.

Ao final da reunião, foi oferecido aos presentes um “tour” à capela e à Pedreira. Até o “fog” característico apareceu para lembrar que estávamos na mata Atlântica e, a contar com a animação, o XIV Congresso já começou e começou muito bem.



dalila teles veras












quarta-feira, 29 de junho de 2016

O Debate das Políticas Públicas da Cultura - Tarefa de Sísifo




Abaixo, a íntegra do pronunciamento de Dalila Teles Veras na mesa “QUALIDADE DOS SERVIÇOS PÚBLICOS – Saúde, Cultura, Educação, Esportes na vida das pessoas”, durante o XIV SEPPI - SEMINÁRIO DE POLÍTICAS INTEGRADAS, organizado pelas Universidades USCS, UMESP e  UFABC. O evento aconteceu no Campus Centro da Universidade Municipal de São Caetano do Sul, no último dia 08.06.2016.

A proposta do Debate foi a de que cada um dos integrantes da mesa fizesse um breve diagnóstico da sua respectiva área de atuação, na região do ABC, e perspectivas e desafios. Representantes das áreas de Cultura, Saúde, Educação e Esportes:  Dalila Teles Veras, escritora, ativista cultural e coordenadora do Fórum Permanente de Debates Culturais; Profª Dra.Vânia Barbosa do Nascimento, Chefe do Departamento de Saúde  Coletividade – Faculdade de Medicina do ABC); - Profª Ms. Diana Maria de Moraes, Coordenadora do GT Educação do Consórcio Intermunicipal do ABC; - Esportes Prof. Walter Figueira Jr.. Assessor da Secretaria de Esportes do Município de SCS, bem como o e dr. César Schneider – Chefe da Fiscalização do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo




Boa noite a todos. Meu agradecimento aos organizadores pelo honroso convite.
Iniciaria dizendo que, em face do confuso panorama da atual conjuntura política brasileira e do evidente desmonte das políticas públicas federais da cultura que, diga-se, ainda que falhas, a duras penas foram conquistadas, fica difícil evitar o desalento diante deste tema.

Mas quando não foi assim? Pergunto eu. Estamos acostumados, desde sempre, à  frustrante constatação de subirmos dois degraus para, logo a seguir, após a dança das cadeiras, despencarmos cinco. O desmanche e a reconstrução e a eterna descontinuidade. É como se estivéssemos praticando um alpinismo constante num terreno improvável no qual jamais se alcança o topo, pura tarefa de Sísifo.

Não tem sido diferente nas esferas municipais locais. A própria ideia de cultura, via de regra, é simplória, passadista e distante do debate qualificado que há anos a comunidade cultural acumulou e muito tem tentado levar para o debate oficial, sem êxito. Para a esmagadora maioria dos gestores públicos, a gestão da cultura ainda é pautada por eventos, política de balcão, agenda e demandas políticas.  Os produtores culturais e as questões da cultura são encarados, na maioria dos casos, como ornamentos cooptáveis.

A própria ideia de regionalidade não está posta, como nunca esteve, nos discursos da maioria de nossas lideranças políticas, muito menos nas práticas. Por receio, acredito, de dividir com o vizinho, o que se constata por aqui é a costumeira recusa das gestões públicas locais em promover ações regionais integradas e continuadas. Entre os gregos antigos, como se sabe, bárbaros eram os que não falavam sua língua. Entre nós, todo aquele que está fora da restrita esfera do poder municipal é considerado “estrangeiro”.  Aprenderiam muito ao observar e aprender com a cultura do outro, o comprometimento com a diversidade. Desta forma, como integrar cidades que falam sete diferentes “línguas” e se isolam dentro das respectivas fronteiras, ainda que ao longo de pelo menos as últimas duas décadas tenha havido esforços nesse sentido em momentos diversos, mas desgraçadamente descontínuos.

A justificativa costumeira é sempre a mesma, ou seja, a falta de recursos, quando na verdade é falta de políticas públicas que um plano regional de cultura construído a partir do debate amplo e da participação popular, e de linhas claras e objetivas, certamente daria conta.

Como o nosso tempo aqui é curto, farei uma síntese, lembrando algumas das mais significativas proposituras que ao longo das últimas duas décadas foram encaminhadas às Administrações públicas municipais ou instituições regionais, como Consórcio Intermunicipal. Momentos marcantes, nos quais um inestimável conteúdo de demandas, resultantes de massa crítica acumulada e discussões qualificadas, encontros, estudos, trocas e busca de referencial, contribuições que, via de regra, ficaram em alguma pasta de uma gaveta qualquer, da qual foi perdida a chave.  Fica a sensação, ao menos para aqueles que, como eu, dedicaram incontáveis horas e dias de seu tempo em contribuir para o bem comum, de que todo esse esforço foi atirado à correnteza do Rio Letes que passa ao largo do Tamanduateí. Houve, e é importante que se diga, também marcantes momentos em que a vontade política da gestão pública contribuiu  com esse pensar e com essa tentativa de construção. O problema é a descontinuidade, a fragmentação e o consequente esquecimento.

- Anos 90 - Data desse período, o Fórum da Cidadania, o Grupo Independente de Pesquisadores da Memória – GIPEM. A criação da Câmara Regional, o Consórcio Intermunicipal, as duas gestões progressistas de Celso Daniel o primeiro político a pensar a regionalidade, o Projeto Cidade Futuro, a mobilização e participação popular os Congressos de História que são realizados até hoje. Esforços para implantação dos Conselhos Municipais de Cultura também datam desses anos.

- Anos 2000 - Estimulado pelas intensas discussões e insatisfação da comunidade cultural, um grupo de pessoas funda, em novembro de 2007, o Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC. Ao longo dos 13 anos de ininterrupta atuação, o Fórum vem exercendo a cobrança de políticas públicas que possam dar respostas à altura das velozes mudanças locais e globais que requerem diálogos ao nível da sua complexidade. Em 2008, o Fórum é procurado pelo Consórcio Intermunicipal e convidado a participar do Seminário para o Plano Estratégico Regional 2000-2010, ocasião em que levou importantes contribuições àquela instituição, como rever e sugerir acréscimos de novos programas e subprogramas dos eixos estruturantes do Planejamento, projetando a cultura como central no cenário futuro do desenvolvimento regional, incluindo-se aí, o reconhecimento da cultura no processo educativo, como um valor inalienável da formação humana.
Nessa ocasião, a reivindicação de se criar um Núcleo Estratégico de Cultura no Consórcio foi prontamente atendida, sendo que, instalado a seguir, o GT nesse primeiro momento, foi coordenado por um representante da sociedade civil. Importante sublinhar que isso se deu, não por força de lei, mas por um princípio de reconhecimento, legitimidade e conveniência.
Nesse período, 2008 e 2009, o Fórum encaminhou diversos projetos resultantes de demandas recolhidas em seus constantes debates e trocas com outros coletivos, como um inovador Censo Cultural regional; Sugestões de parcerias entre Consórcio, Prefeituras, Universidades e movimentos populares emergentes da sociedade regional organizada; O GT elaborou ainda, junto às 7 Secretarias de Cultura ali representadas, um  Mapa de equipamentos e ações públicas de cultura; Projetou um programa de ações integradas na circulação regional de produtos de várias expressões artísticas. Em 2009, o GT idealizou e realizou a Conferência Livre de Cultura 7 Cidades.
Em 2010, com a mudança jurídica que transformou o Consórcio em órgão público e as respectivas mudanças estatutárias, foi vetada a participação da sociedade civil.  A partir, daí os resultados dessa atuação, com exceção de uma ou outra ação pontual, não se fizeram notar. 
O Fórum e outros atuantes coletivos da região seguiram promovendo, isoladamente ou em conjunto, importantes ações, destacando-se a Conferência Livre de Cultura em Santo André, reconhecida pelo MINC e I Encontro da Diversidade, ambos em 2013,  este último, uma realização da UFABC e SESC Santo André, a partir da iniciativa do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC com a decisiva colaboração do Movimento Cultura Viva Santo André.  Do Encontro participaram ativamente nada menos do que 12 Coletivos de 6 cidades da região. Uma conquista da vontade coletiva, institucional e popular, resultado de um longo processo que veio para re-ligar e com-partilhar ações e pensares que de há muito ocorrem por aqui,  potencializados através das trocas e do conhecimento mútuo, com interessantes desdobramentos. Haveria muitos mais, mas o tempo nos limita.

Após este brevíssimo panorama, gostaria de apontar alguns Desafios que a meu ver se nos apresentam:

Numa região ainda periférica, mas de uma rica diversidade cultural a ser explorada, como ademais é a sociedade brasileira, são muitos os desafios, tanto oficiais quanto comunitários.

- O primeiro deles, a grande tarefa, no meu modo de entender, será  manter viva a memória da discussão e ações acumuladas, a título de bagagem para a partida de quaisquer novas iniciativas. Assim, não cairemos na tentação de quem tenta nos convencer de que tudo é inovador, mas desconsidera o processo arduamente trilhado e construído.

- O segundo, é o de como fazer com que instâncias de governabilidade regional como Consórcio Intermunicipal e Câmara Regional, busquem ações e soluções para problemas comuns de forma integrada com a imprescindível participação da sociedade civil, com voz, vez e voto, parceria constituída de fato.

- Envolver e compromissar as Universidades locais na discussão e participação efetiva do processo e ação cultural externa, bem como discutir o seu papel dentro e fora delas, nas dinâmicas da cultura.

- Criar mecanismos para novas formas de se fazer política, novas formas de participação, que requerem mudanças da própria cultura política.

- Formação continuada de agentes e gestores de cultura e aqui, damos as boas vindas à disciplina de Gestão de Cultura da UFABC.

- Escuta permanente das experiências e demandas de gestões autônomas da cultura, via de regra, criativas e de fato inovadoras, muitas delas amparadas numa nova cultura digital que acabou por transformar, entre outras coisas, a cultura política.

- Criar Conselhos de Cultura que possuam força, representatividade e competência política.

Finalmente, diante das incertezas políticas deste momento, bem como na incerteza do futuro do atual Ministério da Cultura, curiosamente “recriado” interinamente e, consequentemente, da também incerta manutenção de importantes programas com o Sistema Nacional de Cultura e  Plano Nacional de Cultura, deixo, propositadamente, de colocar como desafio a implantação dos Planos Municipais de Cultura, imprescindíveis, mas incompreensivelmente ainda não assimilados plenamente por muitos dos gestores da cultura locais. Lembro que apenas duas de nossas cidades (SCS e Diadema) já os concluíram, mas que, na prática, estão ignorados. 

Gostaria ainda de sublinhar que a comunidade cultural, que aprendeu a lidar com a perspectiva de frustrações, segue criando, permanentemente discutindo e estudando formas de sustentação das manifestações culturais fora do plano institucional, sem, entretanto, deixar de atuar politicamente através de pressão e cobranças das administrações públicas, no sentido de fazer com que o Estado cumpra seu papel nas obrigações previstas em sua Carta Magna, fazendo valer os preceitos constitucionais, incluindo-se aí o sagrado direito da manifestação popular e de sua escuta atenta.
Muito obrigada.

Ainda que aqui não tenha sido dito, a poesia é uma das minhas principais expressões. Assim, encerro, lendo um poema escrito num 08 de junho, como este, em 2013:


8.06.2013

Percorro a cidade
  (que se quer show
   que se quer palco
    que se quer imagem
   que se quer espetáculo)

à busca de sua jugular
    (ausculto
        a cidade que não se quer
        a cidade que é)
a cidade real.


Ao final do debate, Dalila sugeriu aos presentes que aquele encontro fosse transformado também num ato político, em razão do evidente e preocupante desmonte das políticas públicas, programas e direitos sociais pelo atual governo federal interino. A Universidade, disse, não pode se transformar em “bunker” e ignorar o que está ocorrendo. O debate e o alerta permanente faz-se necessário e imprescindível e o lugar do debate de ideias é, por sua própria natureza, também a Universidade.


terça-feira, 14 de junho de 2016

Antonio Possidonio Sampaio (1931-2016)







Faleceu, no último dia 03 de junho, aos 84 anos de idade, Antonio Possidonio Sampaio, um dos fundadores do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC, entusiasta colaborador e integrante do Grupo Gestor.




Aqui, deixarmos uma breve biografia do amigo, patenteamos nosso preito de saudade, com a singela homenagem de seus pares.




ANTONIO POSSIDONIO SAMPAIO, nasceu 29.10.1931, em Morro Preto,  que até 1958 pertencia ao Município de Sta. Terezinha, quando passou a pertencer a Iaçu, no Estado da Bahia. Mudou-se para S. Paulo em 1949, onde concluiu os estudos secundários e graduou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, em 1964.

São Paulo em frente da Casa do Estudante em 1964: da esquerda para a direita: 
Alcides Anchieta de Freitas, Tobias Marcello de Azeredo Passos,
 Antonio Possidonio Sampaio, Milton Aliende Oliveira e  Francisco Pereira Novaes


Jornalista profissional, trabalhou como repórter nos jornais Gazeta Mercantil e Notícias Populares até 1964. Após essa data, colaborou ativamente em jornais de entidades profissionais como Tribuna Metalúrgica, O Escritor, bem como em suplementos literários. Desde a época de estudante, participou de atividades culturais.



Começou a exercer a advocacia na região do Grande ABC, em 1965, onde militou no setor do Direito Social, dedicando-se especialmente à infortunística. É bastante conhecida a sua luta contra as falhas da legislação acidentária e estudos dentro do campo do direito trabalhista. Foi assessor jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema por três décadas.

Em 1989 passou a morar em Santo André, depois de viver 40 anos em São Paulo.

Quer seja como Advogado, jornalista ou escritor, Antonio Possidonio Sampaio deixou sempre sua marca, a marca da luta em prol da liberdade.

Antonio Possidonio Sampaio, Sofia e Antonio Lopes Sampaio

Publicou os livros:

A Arte da Paquera, Ibrex, SP – 1970
Este livro foi considerado pelo Jornal do Brasil um dos principais livros de literatura de humor publicados na época.

Galeria da Solidão,  Ibrex, SP – 1972 
Romance urbano, paulistano, sobre o drama do desempregado com mais de 35 anos

Vendedores de Ilusão, Ibrex, SP – 1973
Romance em que o personagem principal é um escritor novo e sua luta pra vencer o bloqueio editorial e, depois, a censura.

Vamos Empinar Papagaio, Ibrex, SP – 1974
Romance-reportagem sobre a crise do Direito e da Justiça.

Sim Sinhor, Inhor Sim, Pois Não..., Vertente, SP –1977,  2a.edição, Alpharrabio Edições, SP, 1997
Primeiro Prêmio do I Concurso Escrita de Literatura. A luta de um intelectual em prol da liberdade é o tema deste romance.

A Capital do Automóvel - Na Voz dos Operários, Edições Populares, SP – 1979, Edições Populares, SP – 1979. O resultado da longa convivência do autor com os trabalhadores

Lula e a Greve dos Peões, Escrita, SP – 1982
Romance-reportagem, onde os personagens (reais) (re)vivem os episódios da greve dos metalúrgicos de S.Bernardo do Campo em 1980.

Manhatan do Terceiro Mundo, Ibrasa, SP, 1993
Romance inédito que relata as angústias sócio-psico-culturais dos que viveram em tempos de ditadura militar.

ABC Cotidiano - Cotidiário, Alpharrabio Edições, SP, 1993.
      Registros diários que abrangem todo o ano de 1992.  Este livro marca uma nova fase literária do escritor e é também uma declaração de amor a Santo André, que o autor elegeu como sua morada definitiva.

Andanças na Contramão - Reportagem Sentimental, crônicas, Alpharrabio Edições, 1996
Nesta plaquete, que junto com 5 outros volumes de escritores diferentes compõe uma caixa com a coleção Prosas, o autor revela-se um cronista atento ao cotidiano de sua cidade.

Em Busca dos Companheiros, romance, Alpharrabio Edições, SP, 1999
Neste romance, o escritor dá continuidade ao seu projeto de registrar o imaginário das lutas operárias na região do Grande ABC (SP), iniciado em 1979 com a publicação de A Capital do Automóvel, seguindo por Lula e a Greve dos Peões (1982).

ABC no Fim do Milênio, diário, Alpharrabio Edições, SP, coleção Imaginário, 2000 
Aqui, o imaginário do Grande ABC durante 1999 é registrado pela agudeza da observação do escritor atento ao seu tempo que estendeu o mesmo desafio a outros escritores, ou seja, o de registrar o último ano do milênio. O resultado desse trabalho foi publicado em 5 volumes pela Alpharrabio Edições, na Coleção Imaginário.

-  No ABC dos Peões (edição conjunta de A Capital do Automóvel e Lula e a Greve dos Peões), Alpharrabio Edições, SP, 2005

- Andanças com Salvador Bahia, diário, Alpharrabio Edições, SP, 2006
Salvador Bahia surgiu na ficção de APS em 1979 e, desde então, tem cruzado as diversas obras do autor, como o elo que, ao unir autor e personagem, confunde os limites entre ficção e realidade sobre os quais nosso "escritor-repórter" constrói sua obra.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

“Batalha da Matrix – Cultura, Juventude e Direitos Humanos”.



Dalila Teles Veras



A reunião mensal do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC, do mês de fevereiro último, teve como pauta principal a discussão denominada “Batalha da Matrix – Cultura, Juventude e Direitos Humanos”.



Como convidado especial para discorrer sobre o tema, ouvimos o advogado Ariel de Castro Alves coordenador Estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos que esteve muito tempo à Frente da Fundação Criança em SBC, responsável por acionar a Ouvidora Pública do Estado de São Paulo para instalar inquérito no sentido de apurar as irregularidades de uma desastrosa e violenta ação policial (policiais militares e municipais) ocorrida no dia 26 de janeiro deste ano durante a Batalha da Matrix, evento semanal que reúne centenas de jovens para “batalha de rap” na Praça da Matriz em São Bernardo do Campo.







Desde o início daquela atividade, o Fórum vem ouvindo jovens representantes da Batalha da Matrix que relataram a dificuldade de diálogo com a Prefeitura Municipal de São Bernardo do Campo no sentido de encontrar uma solução para essa manifestação de jovens em espaço público.





Como convidados, também contamos com a presença de Marcelo Dino Fraccaro, Diretor do Departamento de Ação Artística e Cultural e Fernando Borgomoni, Diretor do Departamento de bibliotecas Publicas e Preservação da Memória, ambos da Prefeitura Munciipal de SBC.



Antes de passar a palavra ao convidado Ariel de Castro Alves, Dalila Teles Veras informou que foram convidados os jovens Cario César Lopes e Lucas, ambos da Batalha da Matrix, mas que, horas antes da reunião informaram terem sido convidados à última hora para uma reunião no gabinete do Prefeito de SBC, em horário coincidente com o da reunião do Fórum. Essa reunião com o Prefeito havia sido adiada sem data e só hoje foi confirmada à última hora.




Ariel iniciou sua fala discorrendo sobre fenômenos recentes de protagonismo juvenil como a Ocupação das Escolas e o Passe Livre, pautas que foram tomadas pelos segmentos sociais e que ganharam força justamente pelo protagonismo dos jovens. Não é diferente dos que acontece com os jovens da Batalha da Matrix que querem atividades protagonizadas por eles que já demonstraram possuir um protagonismo importante. Disse compreender que o poder público também recebe pressões, mas que no dia 26 de janeiro a PM extrapolou, usando balas de borracha, ação que está proibida desde 2013, sendo que a Corregedoria da PM instaurou inquérito a respeito. Os chamados “rolezinhos” nos Shopping, ocorrências nas quais Ariel entreviu, com o argumento de que “todos são iguais perante a lei”. A Prefeitura de SP fez um trabalho importante que acabou minimizando esses problemas permitindo atividades dos jovens nos estacionamentos.



Ariel: “quando dei os exemplos dos outros movimentos, quis dizer que todos são anárquicos e não personalistas. Eles sempre consultam seus pares. A minha preocupação, como defensor dos Direitos Humanos, é a de que não podemos aceitar que essa função seja alvo de uma intervenção violenta, com gás lacrimogêneo e com a própria Prefeitura assumindo na imprensa ter chamado a tropa de choque que se portou como o Governo Alckimin que tanto combatemos. Já recebi acusações de que defendo bandidos e, na comissão da infância da OAB eu não posso levar estas questões, pois os próprios advogados não concordam com esses movimentos, defendem a posição dos comerciantes locais."







Fernando Borgomoni: “A Batalha foi um sucesso em pouco tempo e se multiplicaram. As obras contras as enchentes no Paço Municipal expulsaram os jovens que foram para a Praça da Matriz. A partir de um depoimento do Secretário de Cultura, a Prefeitura viu-se na obrigação de apoiar o movimento. Isto ficou claro na secretaria de Cultura mas não foi do governo como um todo. Passei a ir para a batalha para observar o que estava acontecendo. Antes de tudo era uma questão social. Temos ali duas frequências diferentes: o público da Batalha, que vão lá com essa finalidade específica, ou seja, a batalha de rimas, do hip hop, que fica na parte de baixo da praça. Na parte de cima, jovens que vão para lá para se reunir, mas sem se interessar propriamente pela batalha. O Pessoal da Batalha tem muito claro que ocupam um espaço público, levam sacos de lixo, apelam para não usarem drogas, para que não usam palavras chulas, sem agressões verbais. Há uma preocupação com a ordem por parte deles. Num determinado momento eles foram ameaçados por traficantes. Lucas, um dos líderes, fez um croqui determinando e reivindicando proteção indicando onde a PM de deveria ficar posicionada. A Batalha não tem como objetivo o confronto com a Sociedade. Juntamos o movimento hip hop organizado, chamamos essas lideranças, mas houve uma certa desconfiança do pessoal da Batalha em relação à geração mais velha do hip hop e não conseguiram conversar.”




A seguir, leu um relatório da Secretaria de Cultura, datado de 2014, no qual havia sugestões de incorporar à Batalha uma série de atividades coordenadas pela Secretaria, como oficinas, e inclusive, “aulas de evangelização” por jovens ligados à Juventude Católica daquela Igreja Matriz, informações que foram alvo de acalorado debate entre os presentes. Perguntado sobre o resultado dessas sugestões, disse que não houve prosseguimento no diálogo, uma vez que os jovens da Batalha querem ser protagonistas e não se submetem aos modos antigos de participação. Até hoje, informou ainda, a Prefeitura, por falta de verba, não conseguiu atender as reivindicações de apoio, como instalar banheiros químicos.





Já Marcelo Dino Fraccaro, enfatizou a complexidade do assunto que requer uma discussão ampla, dizendo que “o estado não consegue acompanhar os movimentos com a rapidez esperada, além das dificuldades de dar respostas”. Informou ainda que “há um entendimento da Prefeitura de que estamos abertos não só em buscar o diálogo com a Batalha, mas também buscar soluções. Estamos tentando concluir um Plano Municipal de Cultura com algumas Secretarias envolvidas nesse debate”.

Presente à reunião, o Luiz Roberto Alves diz-se atento e curioso a esse assunto remetendo-o ao início do Hip hop em SBC, à época em que era Secretário de Cultura, lembrando de Dilma de Melo e Silva e Neusa Borges, que tiveram papel fundamental em ouvir e mediar os jovens de então. Tínhamos “lado” e, como método, entender e atender o que eles reivindicavam, ou seja, muito pouco, um somzinho, uma plataforma. Hoje mudanças. Hoje eles gostam de dar o nome de coletivo, mas esse coletivo tem muito pouco a ver com o problema organizacional e o único caminho para o poder público é construir políticas públicas integradas, única solução para aquele mundo organizado que não no poder público, integrar 6 ou 7 Secretarias para viabilizar soluções a favor do novo que não entendemos ainda mais que cada vez vai se apresentar. Querer ser aberto numa sociedade cada vez mais conservadora. Momentos como este, aqui no Alpharrabio, ficam à parte do oficial, mas são capazes de pensar.”






sábado, 9 de abril de 2016

Retomada do diálogo entre Consórcio Intermunicipal e Sociedade Civil

Abaixo, dois documentos que tratam da retomada do diálogo entre Consórcio Intermunicipal e Sociedade Civil



Relato da reunião do GT Cultura do Consórcio Intermunicipal, pela profa. Raquel Quintino


RELATO REUNIÃO GT DE CULTURA DO CONSÓRCIO INTERMUNICIPAL
31/03/2016

Presentes:
Consórcio: Marta Medeiros;
GT de Cultura:  Haroldo e Simone (Santo André),  Ailton (SCS), Ana Mesquita (SBC), Waldir Oliveira (RGS);
UFABC: Daniel Pansarelli e Gabriela Maruno;
Sociedade Civil: Raquel Quintino e Hildebrando

Sínteses dos assuntos tratados:
Após apresentação do posicionamento do Fórum Permanente de Cultura discordando da realização de um giro cultural neste momento e  solicitando a construção do Observatório de Cultura tendo com ponto de partida o resgate das Conferências de Cultura e Congressos de História. Os representantes do GT e UFABC apresentaram os seguintes posicionamento:

UFABC, Daniel e Gabriela: Temos musculatura para apoiar ações regionais, acesso à editais do MINC, editora publicar as sistematizações e em breve recursos para digitalização de acervos e convênio com o Consórcio que pode ser ampliado. Não podemos descartar um encontro de cultura das 7 cidades que pode ocorrer no final deste processo de construção do Observatório.

GT Cultura, Haroldo: Estamos nos organizando para construção de um Plano Regional de Cultura que consolide um Observatório da Cultura e debate sobre economia da cultura.
Ações já encaminhadas:

Sistematização das 3 últimas conferências de cultura das 7 cidades: Os representantes de SCS estão sistematizando relatórios das 3 últimas conferências de cultura dos 7 municípios, mas nem todos encaminharam seus registros para que o grupo possa concluir os trabalhos.

Oficina para construção de indicadores: Acontecerá nos dias 14 e 15 de abril, no segundo dia o encontro tem vagas limitadas e os municípios podem indicar representantes da sociedade civil. 
Encaminhamentos:

SISTEMATIZAÇÃO DAS CONFERÊNCIAS: Os representante de SCS do GT irão encaminhar para Marta Medeiros o levantamento de quais municípios entregaram os relatos das últimas 3 conferência de cultura para que ela cobre os que não enviaram seus relatórios. Ela irá repassar essa informação para pressionarmos os municípios que não enviaram os relatórios.

CARTOGRAFIA CULTURAL DO ABC: Gabriela levantar os produtos das ações desenvolvidas pela UFABC no último período.

INDICADORES DE CULTURA: O prazo de construção dos indicadores de cultura é setembro/2016  e será definido na próxima reunião 28/04 será definido o prazo para aplicação do indicadores nas cidades para a consolidação de um painel.

PLANO DE AÇÕES E CRONOGRAMA: A próxima reunião do dia 28/04 tem como ponto de pauta reelaboração de cronograma com dos informes dos avanços para ações

PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL NO GT: Será oficializada pelo consórcio a participação da sociedade civil na próxima reunião.



Documento enviado ao Consórcio Intermunicipal do ABC pelo Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC e subscrito por representantes de vários coletivos:


Santo André, 30 de março de 2016


Sr. Luís Paulo Bresciani
D.D. Secretário Executivo
Consórcio Intermunicipal do ABC


Prezado Senhor,
Dando continuidade ao diálogo estabelecido na reunião realizada no Consórcio no último dia 08, especialmente convocada por V.Sa., da qual participaram o Prof. Daniel Pansarelli, a Prof. Silvia Helena Passarelli, ambos da Universidade Federal do ABC e eu, representando o Fórum Permanente de Debates do Grande ABC, quando nos foi dirigido um convite para retomada do diálogo entre sociedade civil e o Consórcio, interrompido em 2010,  tendo, agora, como perspectiva, eventuais parcerias com a UFABC, venho informar o seguinte.

No papel de coordenadora do Fórum, convoquei nosso Grupo Gestor para uma reunião extraordinária sobre este assunto, realizada no dia 21.03.16.

A posição do Fórum, manifestada pelos membros que compareceram à reunião e pelos que se manifestaram por email, é a de seguir no papel que sempre pautou sua atuação, desde sua criação, em 2007, ou seja, criar e ajudar a criar processos participativos e críticos das políticas públicas da cultura na região do Grande ABC, promovendo e participando de discussões e debates de ideias, estabelecendo canais de comunicação com Instituições e Administrações Públicas municipais, sempre acentuando o reconhecimento da cultura como centralidade e valor inalienável da formação humana. Dessa forma, defende e recomenda que fiquem claras as regras para a participação da sociedade civil no Consórcio e que o mesmo abra essa participação para toda a comunidade.

Por outro lado, conforme acertado na reunião no Consórcio, coube a mim e à Prof. Silvia, a tarefa de convocar algumas lideranças da comunidade cultural para uma reunião preliminar, na qual pudéssemos  discutir e ampliar as ideias levantadas naquela ocasião,  ou seja, a de, entre outras,  reativar a circulação cultural entre as cidades, com o amparo das duas Instituições, iniciando, inclusive, a construção de mapeamento cultural da região, “recolher e ser caixa de ressonância”, através de uma plataforma on-line que seria  estudada para ser gerenciada pela própria UFABC. Essa plataforma geraria mapas e relação de eventos.

Assim, foi feito. 20 pessoas foram convidadas, todas ligadas a coletivos atuantes e com larga bagagem na discussão e no debate qualificado de cultura, sendo que houve o cuidado de que tivéssemos ao menos um representante de cada uma das 7 cidades da região. Das 20 pessoas convidadas, 14 compareceram à reunião realizada no dia 22 último, nas dependências da Livraria Alpharrabio, em Santo André, sendo que havia ali representantes de coletivos de 6 cidades da região. Apenas Rio Grande da Serra ficou sem representação.

Ouvidos o pronunciamento de cada um dos participantes, ficou patente que todos são contrários a qualquer ideia de evento, em especial, num ano que se afigura politicamente tão difícil como este, com o agravante, inclusive, de eleições municipais. Nos encaminhamentos, foram retiradas as seguintes propostas:

– Que o Consórcio, antes de qualquer iniciativa de ações de cunho artístico, resgate os documentos que ao longo dos últimos anos recolheram e mapearam anseios e demandas da comunidade cultural, tais como Conferências de Cultura, com suas respectivas sistematizações, Congressos de História, com a publicação de seus respectivos Anais, Encontro da Diversidade, do qual existe farta documentação, bem como a bem sucedida experiência de diálogo da comunidade junto ao Consórcio através do GT de Cultura entre os anos 2008 e 1010.

– Estudar viabilização, em parceria com a UFABC, de um Observatório de Cultura que seja construído com a participação dos produtores de cultura e passe a monitorar os Planos de Cultura; Conselhos de Cultura, Fundos de Cultura, Políticas Públicas de cultura e Preservação do patrimônio cultural.


– Foi enfatizada, ainda, a importância da retomada das reuniões públicas do GT Cultura do Consórcio.  

cc. Prof. Daniel Pansarelli
Pró-Reitor de Extensão e Cultura da UFABC


Dalila Teles Veras
Coordenadora do Fórum Permanente de Debates Culturais

Assinam conjuntamente este documento (por ordem de assinatura na ata de presença nas duas reuniões):

21.03:
Neusa Borges – agente cultural
Julio Mendonça – professor
Carlos Lotto – arte educador
Valdecirio Teles Veras – advogado
Luzia Maninha T. Veras – socióloga

22.03
Sílvia Helena Passarelli – professora,Universidade Federal do ABC
Mário Matiello – produtor cultural, Santo André
Elly Chagas – professora, Santo André
Diaulas Ullysses – diretor de cinema, SBC
Andréia Alcantara – arte educadora, Fórum Cultural de Diadema
Malú Salote – Cia. da Matilde, São Caetano do Sul
Erike Busoni – Cia. da Matilde, São Caetano do Sul
Hélio Gonçalves Costa – arte/educador, Coletivo Circomunidade – Fábrica de Cultura –SBC
Raquel Quintino – professora universitária, Coletivo Sal da Terra, Mauá/Ribeirão Pires
Ana Mesquita – pesquisadora, SBC
Carlos Lotto – arte educador, Fórum
Neri L. Silvestre – Sarau da Quebrada, Santo André
Luzia Teles Veras – socióloga, Fórum Permanente de Debates Culturais
Valdecirio Teles Veras – advogado, Fórum Permanente de Debates Culturais

Nomes que assinaram virtualmente este documento:
Adélia Nicolete – professora universitária e dramaturga
Antonio Correa Neto – ator, diretor teatral e pedagogo
Luiz Roberto Alves – pesquisador e professor universitário (UMESP e USP)
Marcelo de Paiva – historiador