sexta-feira, 3 de junho de 2011

O Congresso de História do Grande ABC e sua história singular

Dalila Teles Veras

     Talvez a região do Grande ABC não tenha se dado conta (a comunicação ainda é precária nesta quase nação de dois milhões e meio de habitantes, apesar da tecnologia) que há décadas é protagonista, sob aspectos, de iniciativas que a colocam na vanguarda social, intelectual, política e artística do país. Não é demais, portanto, lembrar a nós mesmos que somos importantes no contexto da história brasileira, importantes e vanguardistas, no melhor sentido do termo.

     Uma vez mais a região reuniu-se para discutir a si própria e à sua história, ainda que, novamente, a imensa maioria dos habitantes deste vasto universo de almas, tenha tomando conhecimento. Nos dias 25, 26 e 27 de maio último, tendo como palco a cidade de Diadema, realizou-se mais um Congresso de História da Região do Grande ABC, o 11º, em 21 anos. Convenhamos que não é pouco manter um compromisso dessa natureza, sabendo-se da histórica descontinuidade de ações a cada mudança de governo municipal. 

     Após o primeiro ciclo, dentro do qual o Congresso foi realizado nas sete cidades, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra, nessa ordem, o Congresso voltou a percorrer o mesmo circuito, tendo voltado às cidades de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caeetano do Sul e, agora, Diadema, sendo que o município de Mauá, já assumiu compromisso público para realizar o próximo em 2013, restando Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra para completar o segundo ciclo. 

     Um verdadeiro feito, portanto, ter chegado até aqui. Não há notícias de que haja no Brasil algo semelhante, em especial, considerando-se uma de suas características, não usuais em congressos dessa natureza, que é reunir e dar voz tanto a historiadores e pesquisadores de formação acadêmica quanto memorialistas, artistas e pesquisadores espontâneos. 

     O mérito é de muitos, ainda que alguns deles, pelo cabedal de idéias de uns e vontades políticas de outros, mereçam destaque especial, como o Prof. José de Souza Martins, idealizador do I Congresso (a partir de uma carta ao então prefeito de Santo André Celso Daniel, com a posterior adesão incondicional do valoroso GIPEM – Grupo Independente dos Pesquisadores da Memória, à época em plena efervescência, reunindo quase uma centena de pesquisadores, com os saudosos Philadelpho Braz e Paschoalino Assumpção à frente.) Trata-se, portanto, de uma construção coletiva, processo árduo de um debate permanente, do qual de há muito a comunidade se apropriou e as Administrações Públicas não mais podem recusar.

     Tive a honra de participar ativamente do I Congresso, realizado em Santo André, em 1990, tanto da organização, quanto das mesas de debate. Participei igualmente dos demais (à exceção de dois deles, por motivos de viagem), em alguns, a exemplo deste em Diadema, apenas como ouvinte. Sempre saí de todos com minha auto-estima em alta e redobrada vontade de participar do debate cultural local. 

     Dentre os muitos méritos do Congresso, está o de ter conseguido chamar a atenção e preservar prédios públicos que o sediaram, destacando-se como exemplo o Primeiro Grupo Escolar de Santo André (onde hoje funciona o Museu de Santo André) inaugurado justamente com I Congresso; o antigo Educandário e posteriormente Centro Cultural de Mauá, que sediu o V Congresso em Mauá (dali também saiu o compromisso da construção do Teatro Municipal de Mauá); e a Escola Municipal de Ensino Santa Terezinha, em São Bernardo do Campo, local do IX Congresso, onde hoje funciona o Serviço de Memória e Acervo. Ou seja, não apenas preservaram, mas fizeram desses prédios históricos locais vivos, com novos usos e resignificados. 

     Notório é o crescimento de trabalhos acadêmicos das universidades locais sobre aspectos da história regional. No princípio, esses trabalhos vinham de universidades de fora. A academia passou a olhar para o que acontece ao redor dos seus muros, e é bem provavel, incentivada pelos próprios congressos.

     A partir da nona edição, em São Bernardo, o Congresso passou a privilegiar também as artes e a cultura, inserindo intervenções artísticas em seu programa, que acabaram por se transformar em parte integrante do evento, não mais como lazer oferecido nos intervalos. Um Congresso é também o momento do encontro e os intervalos precisam estar livres para permitir a conversa, o convívio e as trocas. Assim, para além das imprescindíveis pesquisas acadêmicas, o Congresso é também valiosa oportunidade para que os participantes possam se inteirar de uma insuspeita e diversa gama de expressões artísticas nas áreas do folclore, música, dança, literatura, teatro, vídeo, etc., como também propiciar o debate sobre essas manifestações. A história viva, em movimento...

     Nesse aspecto, confesso que fiquei muito comovida durante a Roda de Conversa - Culturas Populares: tradição e resistência, atividade que encerrou este XI Congresso em Diadema. Coordenada por Antônio Macedo e Alberto Tsuyoshi Ikeda, históricos e comprometidos estudiosos e defensores/divulgadores das manifestações populares, aquele no comando do "Revelando São Paulo", este no Instituto de Artes da UNESP, a "Conversa" entre as quase duas dezenas de convidados, oriundos das mais diversas manifestações folclóricas (Congada, Folia de Reis, União dos Cavaleiros, Moçambique, Quadrilha junina, Samba Lenço, Catira) e religiões de origem afro-brasileiras, como Umbanda e Candomblé. Esses dignos representantes da nossa cultura popular, deixaram um registro de suas dificuldades (inclusive preconceitos sofridos) e um apelo para que a partir do Congresso iniciativas que protejam essas tradições sejam efitivadas. Sem dúvida, um inestimável patrimônio imaterial que precisa ser registrado, verdadeira síntese do Brasil no ABC, deste Brasil de muitos povos e culturas.

     O Congresso tem sido, até aqui, sempre o possível (mas nem por isso menos importante) e, dentro da situação (econômica, política) de cada momento, o município que o abriga oferece maiores ou menores condições de infra-estrutura e divulgação. 

     Registro, sem desmerecer os demais, um dos memoráveis momentos destas duas décadas de realizações dos congressos, o V Congresso de História do Grande ABC, realizado em Mauá, em 1998, quando foi redigido um documento de Recomendações, contendo 11 itens, dos quais destacaria este: “(O Congresso recomenda que) "o esforço regional na quebra de entraves burocráticos e entulhos legais, a fim de que o Grande ABC se transforme em efetivo corredor de criação, circulação e consumo de cultura, capaz de, nos seus desdobramentos, produzir uma nova cultura política”, bem como, posteriormente, de um item inserido na agenda da Câmara Regional do ABC que rezava: “O município deverá integrar movimento regional de proteção do patrimônio histórico, cultural, artístico e paisagístico”.

     Lamentavelmente, apesar do Congresso de História já possuir uma farta e rica história, as atas dos Congressos, sequer foram publicadas, ou seja, essa história ainda está, também, para ser contada. Publicados em livro, temos apenas os anais do I Congresso, Santo André, e do II, em São Bernardo do Campo; de alguns, há CDs, precariamente gravados, de outros, absolutamente nada. Um Congresso de história que não registra sua própria história. Escreve-se, recomenda-se, mas apenas aqui e ali vinga uma ação que vai de encontro ao recomendado. Sem o registro e o desejável acúmulo da massa crítica para futuros estudos e ações, será sempre o eterno recomeçar. Importante ressaltar a auspiciosa novidade trazida pela Professora Terezinha Ferrari, do Centro Universitário Fundação Santo André que, em conjunto com Carlos César Almendra, apresentou uma comunicação neste Congresso de Diadema, sobre a "pesquisa que desenvolve um levantamento histórico sobre os congressos de História do ABC, procurando através da análise dos anais e documentos produzidos nesses encontros desenvolver uma reflexão metodológica sobre esses encontros".

     Ainda assim, com todos os compreensíveis percalços, o Congresso caminha, aqui e ali, reinventando-se, em busca da compreensão de sua própria trajetória e do local a que se propõe registrar e compreender. Esperemos que Diadema abrace o compromisso da publicação e que Mauá, desde já assuma também, não apenas a realização do Congresso em 2013, mas igualmente assuma o seu registro e posterior publicação.



Nota: Em reunião realizada no último dia 31 de maio na sede do Consórcio Intermunicipal, um grupo de cerca de 20 pessoas, desde participantes da organização, funcionários da Prefeitura de Diadema, membros do GIPEM e colaboradores voluntários, avaliou o Congresso e redigiu uma carta a ser enviada ao Consórcio que recomenda estudos no sentido de que o Congresso de História do Grande ABC venha a integrar, como ação permanente bi-anual, o calendário daquela instituição, contando com o fornecimento de infraestrutura e apoio financeiro à sua realização, configurando e institucionalizando, assim, o seu caráter regional.

4 comentários:

  1. Marcelo Dino Fraccaro5 de junho de 2011 17:39

    Obrigado mais uma vez, Dalila. Por mais um importante artigo sobre a situação de nossa realidade cultural. Este texto, assim como os demais deste blog, nos proporciona um canal de comunicação fundamental no fortalecimento do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC.
    Marcelo Dino Fraccaro

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  2. "Olá, Dalila, lendo seu texto sobre o Congresso de História, fiquei recordando...!!! É mesmo uma pena que não publicaram os registros desses 21 anos de tanto trabalho e detalhe. O formato foi acontecendo e sendo ajustado. Espero que um dia ainda possamos nos encontrar para analisar e comentar as publicações e espero que mais pessoas que participaram se manifestem......temos que registrar sempre a nossa história local.....afinal, somos nós os fazedores dela... parabéns pelo trabalho....!" Derli Escudeiro Godoy.

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  3. Valioso depoimento, Dalila. O que seríamos sem memória? É nosso maior patrimônio!

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  4. Dalila ,
    obrigada por capitanear estas iniciativas tão valiosas que procuram colocar a nossa região numa vanguarda social, intelectual, política e artística deste imenso país.Carinho a todos os alpharrabianos,bjs
    mireille

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