terça-feira, 5 de julho de 2011

CINEMA PARADISO NA VILA SÃO PEDRO

Dalila Teles Veras

Pombinha, Antonio, Zé Lapada, Cidão, Pantera, Iaci, Geralda, Adheilda, Geraldo, Marquita, Roseli, Jony Reis, Alexandre, Zeca, Zé, Festa de São Pedro, Marrudo, Paulismar, Pedrina, Odeneide, Alaíde: aparentemente, apenas nomes, mas não são apenas nomes. Mais do que isso, cidadãos. Seus depoimentos resultam numa narrativa multifacetada, que, no seu conjunto (22 minutos), conta uma história. Esta:

Há 24 anos, 600 pessoas tomaram posse de uma localidade na cidade  de São Bernardo do Campo que viria a se chamar Vila São Pedro, hoje um bairro de 65 mil habitantes ("uma cidade dentro de outra cidade maior"). Nessa cidade dentro da cidade maior, veio morar o baiano de Brumado, José Milton dos Santos, que em criança, lá na cidade natal, ajudava no cinema e ganhava restos do rolo dos filmes das pornochanchadas e, após emendá-los, valendo-se de uma lente de óculos da mãe a guisa de projetor e uma lâmpada que sempre queimava, quando não provocava um curto-circuito, projetava a mulherada pelada para a molecada do bairro, cobrando trinta centavos de entrada.  Um sucesso. Depois, já em São Paulo, mais precisamente na Vila São Pedro, em São Bernardo do Campo, a descoberta de que o cinema era mesmo sua verdadeira vocação. Persistiu e, convocando os vizinhos como atores (de preferência os que tinham família numerosas para garantia da futura platéia da sala de cinema improvisada na garage de sua residência), começou a fazer filmes de ficção, sempre com câmeras de vídeo, amadoras e de baixo custo, mas fazendo uso de uma criatividade surpreendente. 

Foram 17 filmes, de ficção (roteiro e direção seus, cujas histórias de bastidores fazem rir e comovem, até chegar ao documentário "Vila São Pedro e sua gente", exibido nesta segunda-feira, durante a reunião mensal do Fórum Permanente de Debates Culturais, na livraria Alpharrabio, em Santo André.

Após a exibição do documentário, José Milton falou para o público presente sobre sua trajetória e os 17 filmes rodados no ABC (o "local que usei como cenário e que, agora vejo, registrei também a história do ABC").

O documentário Vila São Pedro, onde a história do bairro é contada através do depoimentos dos próprios moradores, personagens da sua própria história, foi o primeiro filme de José Milton que recebeu recursos financeiros, através do programa VAI, da cidade de São Bernardo do Campo ("até então, sempre fiz filmes com meu próprio dinheiro, sem dinheiro"), o que, pela primeira vez, possibilitou a compra de alguns equipamentos imprescindíveis (microfones, câmeras, etc.), já que tudo o mais foi, como sempre, através da amizade e do voluntariado de gente que acredita no talento de José Milton (Neusa Borges, Nanci Barbosa, Roseli Urtigoso entre outros). Após 8 horas de gravação e 4 meses de trabalho, filme editado, a exibição, ao ar livre, na Vila São Pedro, contou com a presença os atores/depoentes, a Vila como palco, auto-estima em alta, alguns deles transformados após o relato das lutas e das conquistas. A história da passagem daquilo que era lama e desolação em uma verdadeira "cidade", hoje dotada de infra-estrutura, graças às lideranças  que souberam envolver toda a comunidade. Da violência à paz, do barro ao asfalto, da falta de escola às escolas, incluindo creches, das carroças às 10 linhas de ônibus, histórias que o cineasta colheu e agora nos oferece, obra que merece constar nas bibliotecas das escolas, como exemplo a seguir, como documento a aprender, como história a registrar. (dtv)

3 comentários:

  1. Valdecirio Teles Veras6 de julho de 2011 10:28

    A noite era do baiano José Milton dos Santos, o cineasta do ABC, da Vila São Pedro, do Brasil. Como migrante nordestino senti-me dentro das estórias colhidas pelo Zé. Lembrei-me do Aron Feldman, outro cineasta, que retratou nossa gente e fazia cinema com amor. Foi muito bom encontrar o José Milton e conhecer a realidade da Vila São Pedro. Valdecirio Teles Veras

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  2. José Milton transmite alegria, satisfação e entusiasmo quando conta a forma com que fez e faz cinema. Parece até que as dificuldades enfrentadas se tornam mais brandas. Ele nos transporta ao mundo de graça e sonho onde situações que poderiam ser trágicas, são engraçadas aos ouvidos. Mas, de tudo que vimos e ouvimos, a lição que ficou foi a de um grande trabalho social que tem um poder grande de transformar a vida das pessoas que fazem e fizeram parte dos filmes do José Milton. Me surpreendi! Simone Masseni

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  3. Não pude estar na reunião. Desculpem novamente. Saio do trabalho às 19h. Vejo que perdi bastante. Abraço a todos.

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