quinta-feira, 21 de março de 2013

"Essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós"*


Neri Silvestre

     Santo André cidade de 750 mil habitantes, um misto de cidade Industrial e de prestação de serviço, hoje uma cidade dormitório.
     Com a base no comércio diverso, shopping, camelôs e prestação de serviço, sua população tem características diversas, uma mistura de raças e costumes.




     Na nossa cidade a produção de cultura e arte sempre foram bem movimentadas, presentes em cada bairro em cada cidadão desse nosso pequeno mundo.
     Inserida na região do ABC, berço do proletariado das lutas sindicais, dos punks, dos funções, dos campeonatos de futebol de várzea, das rodas de samba, dos grupos de teatro, das bandas de garagem. Ao longo do tempo perdeu algumas dessas expressões e manifestações artísticas e culturais, ganhamos outras, e nos tornamos cada vez mais plurais, menos homogêneos. Nos misturamos.



     A hibridez do Brasil nos atingiu em cheio, porém o poder público não acompanhou as mudanças os partidos políticos locais insistem no modelo analógico, não compreendem que a lógica da política cultural está no reconhecimento e na potencialização dos atores culturais, produtores e fazedores de cultura como grandes propulsores das ações fazeres e saberes culturais.
     Sendo reconhecido pelo estado moderno desvinculado das oligarquias, do clientelismo e da filantropia barata.
     A partir dessa pequena leitura criamos o grupo Cultura Viva que tem como meta discutir, propor, dialogar e colaborar com os novos gestores públicos para ampliação do conceito de cultura, implementação do sistema municipal de cultura, criação de editais e leis como Cultura Viva e de fomento.
Porém, como disse anteriormente, a política que vem sendo feita e implementada no momento é a da cooptação.
     Nesse caminho fizemos uma audiência pública com mais de 200 produtores culturais com o secretário de cultura, onde o diálogo foi totalmente desconexo da atualidade e sem uma narrativa clara, nosso gestor público deixou a desejar. Nesse dia, tiramos uma data para um novo encontro.


     Contudo, continuamos trabalhando nos programas de governo com a ideia de colaboração, a ideia é a da parceria e em nenhum momento houve por parte do movimento social a disputa pela pasta.
     Na data estabelecida, marcada na Audiência Pública tivemos uma surpresa: o gestor não compareceu, nem mandou representante e de forma arbitrária dificultou nossa permanência dentro das dependências da prefeitura.
     Nesse momento optamos em debater a ausência do secretário e como poderíamos ir para rua fazer nosso protesto, resolvemos radicalizar e tomar a cidade com um assalto poético.
     Fizemos o nosso manifesto silencioso, por um diálogo, pela democratização e por uma política cultural cidadã.
     Fizemos a leitura silenciosa do nosso manifesto, colamos cartazes feitos pelos próprios habitantes da nossa cidade.


     Em silêncio chamamos atenção da população, no modelo da não violência de Mahatma Gandhi e invadimos o que sobrou da nossa concha acústica e nesse momento colocamos a boca no mundo e convocamos a população para o debate sobre a cidade que queremos.
     A mímica de um dos integrantes do nosso manifesto foi o que chamava atenção da população, aplausos e apoio dos que sensibilizaram com a manifestação. Em um momento o tambor rompeu o silêncio, nosso coração soava ao seu toque, momento de encantamento.
      O nosso griô Mestre Ditinho da congada abriu o verbo literalmente, e de forma lúcida e clara observou quem havia colocado esse tipo gestor foi nosso prefeito Carlos Grana que não levou em consideração o nosso apoio na campanha eleitoral.



     Por fim, como movimento de cultura deve ser, terminamos onde começamos com chamamentos e uma linda ciranda. Cirandas da Rainha da ilha de Lia, ou, como diz a canção “essa ciranda não é só minha é de todos nós”.
     É nessa nova conjuntura que desejamos que a política cultural transforme a população andreense em cidadão pleno e que políticas afirmativas construídas de baixo para cima sejam aplicadas pelo poder público.


     Por fim a cultura não tem fim.

*Publicado originalmente no blog do Movimento Cultura Viva Santo André

Um comentário:

  1. dalila teles veras22 de março de 2013 14:51

    As imagens que complementam o lúcido texto do Neri são de Luzia Maninha Teles Veras.

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