segunda-feira, 20 de julho de 2015

MAP - Museu de Arte Popular de Diadema


Imagem: Domingos Sairo T. Gomes

MAP - Museu de Arte Popular de Diadema e Políticas de Cultura
são objeto de Audiência Pública


Com a presença representativa e maciça de produtores culturais e interessados nos rumos das políticas públicas de Diadema, foi realizada no último dia 14 de julho uma Audiência Pública nas dependências da Câmara Municipal daquela cidade que tiveram todos seus espaços disponíveis ocupados pela população.

Marcada por tensões, uma vez que o Secretário de Cultura da cidade, visivelmente despreparado, pareceu não entender a finalidade daquela audiência, limitando-se, ao invés de responder aos questionamentos e propostas ali apresentadas, a ler itens burocráticos e números correspondentes à sua Secretaria, exibidos através de tabelas num "power-point", mas também por um debate qualificado dos representantes dos coletivos.

A Audiência, solicitada através de requerimento da vereadora Lilian Cabrera, foi proposta por um amplo movimento de cultura que congrega os coletivos Hip Hop; DiaDeNega; Kizomba; Macacagueto; Samba e MAP Museu de Arte Popular, todos representados naquela Audiência.
De acordo com uma das lideranças, a artista plástica Andréia Alcântara, a "gota d´água" que levou os grupos a solicitarem a Audiência, foi a transferência do MAP do seu lugar de origem, sem que houvesse qualquer discussão ou planejamento prévio e sequer justificativa plausível para essa mudança.

Foi entregue, na ocasião, um longo documento ao Secretário de Cultura que mapeia os problemas com equipamentos e políticas públicas da cidade, exigindo a prometida participação popular e diálogo para retomada de atividades paralisadas bem como solução para os problemas ali apresentados.

Dalila Teles Veras, coordenadora do Fórum Permanente de Debates Culturais, foi convidada pelos organizadores a fazer um pronunciamento na abertura dos debates da noite. Também representando o Fórum, estiveram presentes à Audiência, Valdecirio Teles Veras, Carlos Lotto e Luzia Maninha Teles Veras.


Imagem: Domingos Sairo T. Gomes

Segue a íntegra da fala de Dalila:

Boa Noite. Boa noite, Sra. vereadora Lilian Cabrera, autora do requerimento para realização desta Audiência Pública, em nome de quem cumprimento todos os companheiros desta mesa. Boa noite mestre Jeronimo Soares em nome de quem cumprimento todo este povo da cultura.

Em nome do Fórum Permanente de Debates Culturais do Grande ABC, do qual sou coordenadora desde 2007, em nome do Movimento Cultura Viva Santo André, com o qual também colaboro, ambos aqui por mim representados, agradeço o convite do movimento PróCultura de Diadema, responsável pelo pedido desta Audiência Pública, movimento ao qual aderimos incondicionalmente desde o primeiro momento, por reconhecermos sua legitimidade no sentido de reivindicar a melhoria e preservação dos espaços públicos através de diretrizes de políticas públicas transparentes para a cultura deste município.  Dentre os importantes itens aqui pautados, desejamos ressaltar e denunciar a grave situação do MAP - Museu de Arte Popular de Diadema, com a retirada do seu lugar de origem, sem que um  debate ou planejamento prévio fossem realizados, atitude que põe em risco sua história e a própria existência do museu.

Riobaldo, imortal personagem de Grande Sertão Veredas, disse que "nome de lugar onde alguém já nasceu, devia de estar sagrado". Isto pode se aplicar ao caso do MAP Museu de Arte Popular de Diadema, que nestes seus 8 anos de funcionamento construiu  uma identidade e constitui-se hoje numa incontestável referência nacional.  Sim, o solo onde bens culturais se enraizaram e se tornaram marcas de referência da cidade, reconhecidas aqui e muito além, como é o caso do MAP, devem estar sagrados, como queria Riobaldo e seu criador Guimarães Rosa.

Eu estava lá, em 28 de outubro de 2007 e não há como não lembrar a indescritível atmosfera de sonho realizado que ali pairava. Sonho do artista Ricardo Amadasi, seu idealizador, Coordenador Técnico e Curador que, após pesquisa, percorreu vários estados brasileiros na recolha de boa parte do que hoje compõe o impressionante rico e diversificado acervo do MAP. Sonho da jovem equipe que ali estava presente, com o entusiasmo de quem sabe da missão cidadã que assumiu. Sonho coletivo de muitos que a este sonho aderiram.

A partir de então aquele espaço passou a exercer o papel para o qual foi idealizado, ou seja,  "um lugar que faça justiça à riquíssima arte e cultura popular brasileira", mas não só, passou também a ser um museu vivo que, além das exposições que,  através de importantes parcerias, criaram pontes culturais com vários importantes artistas e espaços culturais de outras localidades do país, transformando-se também num espaço para encontros e trocas, um espaço para pesquisa, um espaço de ações educativas reconhecido por gente de abalizada opinião. Haja vista sua história relatada em 3 alentados catálogos, nos quais é possível avaliar com isenção essa bela trajetória que só honra e leva o nome de Diadema para fora de suas fronteiras.

O MAP é local, a partir do significado simbólico do seu logotipo, criado por um artista residente na cidade, o mestre Jeronimo Soares, cuja arte de há muito ultrapassou fronteiras. A local também pela inestimável riqueza da representação de outros tantos mestres populares residentes aqui e ao redor.

O MAP é do Brasil, pelo seu importantíssimo e inestimável acervo de mais de 800 peças de artistas populares brasileiros, no qual se inclui um importante presépio composto de 700 peças, hoje triste e precariamente encaixotado, à espera de uma mudança.

O MAP é do mundo, porque além de ser o primeiro e até o momento único no seu gênero em nossa região, representa o que há de mais legítimo na cultura brasileira. No dizer do crítico de arte Oscar D'Ambrósio, "o MAP inscreve seu nome entre as poucas instituições nacionais que trata a arte e a cultura popular com o respeito e a dignidade que ambas merecem". Aqui faço um parentesis para dizer que hoje esse verbo "inscreve", por força de uma decisão desastrosa, está, e esperamos que provisoriamente,  conjugado no passado.

Pois bem, esse importante bem cultural hoje corre sérios de ser descaracterizado e esse é um dos motivos de estarmos aqui.

Reforçamos, assim, o que um abaixo assinado já reivindicou, ou seja, a revogação imediata da decisão de mudança de local do MAP, inestimável bem cultural público, criado pela vontade popular e que tão bem representa a cultura brasileira e o imaginário coletivo da própria população de Diadema, composta por migrantes de todos os rincões brasileiros.

Muito obrigada

Deixo aqui a minha crença nos bons encaminhamentos e ações reparadoras calcadas na verdadeira participação popular.  Obrigada.

2 comentários:

  1. Dalila, sempre uma grande presença por onde ela passa.

    Quem tiver o interesse de conhecer o documento, ele foi publicado no seguinte endereço: http://andreia-alcantara.com.br/forum_01_apresentacao.html

    São muitas e consistentes questões feitas por uma riquíssima construção mútua, pessoas com o o interesse comum de construir uma cultura de qualidade baseada na participação do poder público e da sociedade civil.

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    1. dalila teles veras20 de julho de 2015 20:30

      Sorte minha que passo por locais e gentes como Diadema e todos os que lá estavam. Abraços

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